terça-feira, janeiro 23, 2007

Coisas Familiares do Estabelecimento da Esquina

Quando sai à pressa e já só tem tempo para um café rápido no estabelecimento da esquina o Coroneu senta-se e pede uma torrada e um sumo de laranja. Quando não sai à pressa, também.

O estabelecimento da esquina é de gestão familiar. Além dos donos e do filho dos donos trabalhava também, até Setembro do ano passado, a filha. Os donos informaram os clientes que a filha tinha ido para a faculdade. Diziam-no com um certo orgulho e alguma vaidade compreensível. Uma manhã chegaram mesmo a servir uma nota com o sumo que dizia "Este sumo não é servido pela filha dos donos porque a filha dos donos foi para a faculdade".

Acontece que desde o início do mês a filha dos donos já trabalha novamente no estabelecimento porque desistiu da faculdade. "Na faculdade não se aprende nada", sustentam agora os donos. Mas nem tudo foi perdido. A filha dos donos trouxe um amigo. E ontem depois de se sentar e pedir uma torrada, o Coroneu foi obrigado a abandonar o estabelecimento da esquina para não incomodar o pequeno esclarecimento que o dono-pai a brincar com facas pedia ao amigo da filha. O Coroneu desconfia que o amigo é o responsável pela barriga cada vez mais proeminente da filha dos donos. Talvez o pequeno esclarecimento com facas tenha a ver com isso. O Coroneu teve de comer noutro estabelecimento. E ainda os colegas do Coroneu se perguntam porque chega ele sempre atrasado...

segunda-feira, janeiro 15, 2007

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Tempo Que o Tempo Não Tem

Estava o Coroneu sentado na janela de um café, aproxima-se um senhor de pelo menos 50 anos sem mau aspecto. Desembrulhando desculpas começa a falar. Que não queria dinheiro, ajuda para comer, nada. Que vivia sem dificuldade, que antes da reforma tinha feito reportagens para o Expresso, a Capital, o Diário de Notícias, Independente, que a família cortou relações por não concordar com o casamento, que ele e a mulher tentaram mas não tiveram filhos. O Coroneu olhou disfarçadamente para o relógio e convidando-o para se sentar ofereceu-lhe um café. Que gostava muito de ler (Dickens, Conrad, Julio Verne) e de música, que depois de viúvo sentia falta de falar com alguém, que já experimentara um lar mas achava o ambiente horrível, que na igreja eram demasiado obtusos.

Depois de 20 minutos o Coroneu desculpou-se que tinha de sair. O senhor levantou-se e não aceitou outra coisa que não pagar os cafés. Disse a sorrir "Estou habituado. Hoje em dia nem o próprio tempo tem tempo para mim. Já lhe agradeço muito.". Já no carro o Coroneu meditou que o senhor não queria dinheiro nem ajuda para comer. O que o senhor queria era o tempo de alguém para o ouvir e ao pagar os cafés estava a comprar o tempo que tomou ao Coroneu. O Coroneu aumentou o som do mundo a entrar pelo rádio, talvez incomodado por ter receado apenas um senhor sem ninguém para o ouvir.