quarta-feira, dezembro 27, 2006

Jogo da Gloria in Excelsis Deo


Saída do emprego, sexta-feira 22, partida:
VCI (para o X a prenda Y), A1 (para a Z a prenda W), a voar enquanto os polícias entretidos na berma com camionistas - avançar 3 casas, segunda circular (o trânsito na TSF), semáforos, peões a soprar frio na passadeira (introspecção social - pobres dos ricos ou ainda bem que tens AC no carro?), chocolates, vim só deixar isto no escritório de Lisboa boas-festas!, eixo N-S (não me lembro de nada para a H), bombons com formas, tortas, doces, centro comercial (o X e a Z já estão), tem cartão de estacionamento?, claro mas ficou no carro - passar pela cave de partida sem receber nem esquecer de bater com a cabeça no elevador para não ser distraído, baixa chiado (ah!, bombons com forma de Floribela!), na calçada castanhas a fumegar, está esgotado só na nossa loja da avenida e tem de se levantar lá, lanchar a horas de jantar (e para a H? e para a H?), velhotes de cidade atrelados a pequenos cães de pilha encasacados - tira um pensamento jocoso e guarda só para ti, ena as luzes das avenidas!, levantar encomenda e para a H porque não um Q?, voltar ao centro comercial mas é rápido, loja 10 1ºpiso, estrada, as luzes da cidade para trás, a noite engole o carro e a A2 em comunhão, A6 em 55m e a luz descontínua dos candeeiros a riscar o capô, abrandar e virar entre paredes caiadas, a casa serena não fosse o canto dos ciganos, estacionar, a noite fria afinal também está estrelada, entrar.
Minutos mais tarde, madrugada de sábado 23, lareira e descanso com o prazer das prendas a marinarem sob o pisca pisca da árvore dos mais novos, companhia das pessoas que interessam. Chegada.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Ayer, Hola y Adiós a Madrid

Por estes dias em Madrid, mesmo que não haja vento sente-se como se houvesse. Explicando: faz frio. (Até as iluminações de Natal cintilam tremuras nocturnas entre as árvores das praças). O Coroneu andou pela Plaza de Santa Ana junto ao teatro espanhol. Áquela hora as cadeiras amontoavam-se invertidas frente aos restaurantes circundantes prestes a fechar. Uma reunião de pequenos chilenos ou descendentes confundiam-se com a estátua de Garcia Lorca enquanto assinalavam a morte de Pinochet. Pela passividade o Coroneu não percebeu se celebravam a morte do ditador ou lamentavam a do pai da economia.

Na calle huertas um pequeno bar de jazz. Antes, a menina da bodega sugeriu o prato mais caro da lista e perguntou ao Coroneu se era francês. O Coroneu benzeu-se e perguntou se cheirava assim tão mal. (Ok, não perguntou mas teve vontade). Escolheu outro prato qualquer.

Mais tarde enquanto a caminho de um inesperado encontro amigável no aeroporto, ouviu o desabafo do taxista guiado por gps: 'temos muitos problemas aqui com a emigração, havia que plantá-los ao longo de um muro e fuzilá-los um a um como na guerra civil'. Ao Coroneu resta considerar que quem pensa 'esta ignorância só em Portugal' conhece muito pouco do mundo. Que há mesmo quem passe todos os dias pelas calles sem notar nem saber que por estas noites as iluminações de Natal tremem de frio no belo centro de Madrid.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Pequeno Almoço de Principe S.F.F.

Quando sucedesse ao Coroneu encontrar-se com tempo num país que não o dele, a melhor hora era sempre a do pequeno almoço. Tempo de ler o jornal do país, das primeiras observações contempladas, talvez alguns apontamentos na memória e no papel, ou oportunidade para acertar contabilidades. O Coroneu sempre preferiu o pequeno-almoço buffet europeu, um manancial de probalidades de manteigas, doces, croissants (quando os há), fruta, bolos e leite com café ao apetite, fazendo repicar no estômago a recordação múltipla de hotéis. Do que sobrevive na memória do Coroneu acerca do circuito internacional (fora da Europa) dos pequenos-almoços distinguem-se normalmente o Continental (pão, marmelada, manteiga, café com leite e um sumo), o Americano (acrescenta ovos mexidos ao Continental) e o Buffet (acrescenta flocos, iogurte, fruta, etc...).

Um dos reconfortantes pequenos almoços tomou-o o Coroneu sozinho (com lembranças de amigos longínquos) num lago abrigado pelos pinheiros e arbustos da alvorada em gelo. E nessa madrugada, melhor que um buffet de hotel, só mesmo o perfume de alecrim prestes a misturar-se enquanto espera com paciência que borbulhe sobre a fogueira o odor forte do mesmo café que se usa quando os amigos nos visitam em casa.

terça-feira, novembro 21, 2006

Regresso Numa Noite Escura e Serena

Num lado escura noutro também serena. A noite é escura e serena quando não chove, ou talvez por ter chovido semanas atrás. É mais escura naquele quarteirão de baixo, onde as prostitutas saiem das sombras quando querem, na previdência de um carro que abranda. Onde homens em pé com o joelho dobrado e olhos escondidos sustentam as costas na caliça da parede, de mãos nos bolsos e cigarro acesso esperando nem eles sabem o quê. Não inspira segurança passar por aquele lado.

Deste lado a noite é mais serena, é o lado onde apesar do piscar alternado de candeeiros indecisos (revezam a luz, como os faróis) não existe alma visível excepto os gatos silenciosos de cauda apontada ao céu. Às vezes, numa dessas voltas ao quarteirão que o Coroneu dá (no pretexto de um café, ou mesmo sem pretexto) fica a ouvir a noite a pingar. Pinga de forma diferente, conforme o lado que se oiça. Deste lado pingam também sossego de velhinhos (como a velhinha dos gatos). E lá estão os namorados a ouvir rádio no Fiat, pela silhueta a cabeça de um no ombro do outro. Já na varanda o Coroneu verá a despedirem-se, ele esperará que ela entre no edifício, feche a porta e depois arrancará invertendo pela parte das prostitutas. E decerto que ela lhe recomendou um toque quando ele chegasse a casa. Para saber que chegava bem. Porque ela pressente: não inspira segurança atravessar a parte escura de uma noite serena.

sábado, novembro 11, 2006

Como Um Quadro de Manet

Na outra noite, andava o Coroneu de copo na mão a resolver o tédio com os decotes das empregadas do bar, quando reparando numa delas não foi capaz de resistir e na primeira oportunidade inclinou-se, segredando-lhe ao ouvido qualquer parvoíce pretenciosa como 'a menina assim atrás do balcão faz lembrar aquele quadro do Manet'.

E a menina atrás do balcão, em vez de torcer a boca num S deitado, em vez de virar as costas com 'seu ordinário' ou 'seu esquisito' ou em alternativa sorrir em 'ai seu romântico nunca me tinham dito isso', respondeu 'qual quadro, aquele Un bar aux Folies Bergère contestado por possíveis erros de reflexão no espelho, que nem pintado num bar foi? E o Manet que pintava putas e que considero o pintor mais escuro dos impressionistas?'

Claro que o Coroneu poderia contrapor que foi o último grande quadro de Manet, que a modelo Suzon trabalhava mesmo no bar, que Manet foi percursor das cenas quotidianas e que pegando no impressionismo fez-lhe a ponte para os motivos realistas... Poderia contrapor mas ficou para outra ocasião. Entretanto pediu-lhe mais um copo enquanto saboreava a raridade das mulheres-espírito-livre.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Pessoas Que Vivem Abaixo das Suas Possibilidades

E depois há aquelas pessoas que vivem abaixo das suas possibilidades, isto é: que podem comprar 3 carros distribuidos pela familia mas acabam por circular em 3 enormes rádios volantes tunados que enquanto o semáforo não abre contaminam o metal vibrante dos carros adjacentes; que podem viver numa imensa casa com espaço para arrumação mas semeam as engenhocas ultrapassadas detrás das estátuas de dálmatas sentados; que na mesma casa distribuem televisões pelas paredes orientando os sofás da sala para a parede projectada que se torna o coração da sala em detrimento da lareira; que procriam uma familia de anões de jardim polidos diáriamente e aos filhos depositam-nos na casa dos avós antes das constantes festas sociais; que em vez de educarem os mesmos filhos na perspectiva da meritocracia lhes demostram no quotidiano as vantagens do marketing pessoal acumulado ao impune nepotismo (esse nepotismo, nos seus múltiplos cambiantes subtis apesar de tudo escancarados). A parte cómica é falarem com sotaques inventados.

O Coroneu estarrecido observa sempre curioso quando tropeça num membro dessa espécime. Lembra-se de vários episódios ("você sabe quem eu sou" ao pagar na discoteca, resposta de alguém "é o que vai para último da fila") desejando quando crescer não se transformar numa dessas pessoas que vivem abaixo das suas possibilidades.

terça-feira, outubro 24, 2006

Se Pudesse Escolher Só Uma

Se há uma coisa que a parte infantil do Coroneu (isto é, 95% do Coroneu) gosta de rever nos filmes do Harry Potter é a forma visual como a magia subverte a realidade e se pudesse escolher só uma não eram as tochas que acendem sozinhas, não era o espelho da sinceridade, não era a varinha mágica, não era voar na vassoura Nimbus, não era receber correio pelo ar, nem sequer era a manta da invisibilidade. Se 95% do Coroneu pudesse escolher só uma da magias, escolhia aquela do album em que as pessoas das fotografias se mexem e riem e falam tão coloridas e reais como se ainda estivessem vivas.

(e se tivesse um album assim 95% do Coroneu - que é també 95% das pessoas? - passava pelo menos 1h por dia a conversar com as fotografias.)

sábado, outubro 21, 2006

Concertação de Conteúdos nos Grupos Sociais



Em perspectiva de um casamento, um amigo do Coroneu suspirava aliviado ao certificar-se que era o único convidado da empresa. Como este amigo do Coroneu é considerado uma pessoa genuína, o Coroneu conclui que esse alívio pode ser sinal menos positivo do contexto laboral em que ele está inserido. Parece ao Coroneu que afirmar de uma pessoa que é genuína ou autêntica, significa que em diferentes contextos sociais e profissionais essa pessoa apresenta uma postura invariável traduzida num comportamento linear, que transmite a sensação de coerência consigo própria.

Porém, motivado pelos conteúdos de linguagem própria que cada grupo social constrói - o grupo social da infância, do secundário, da universidade, dos colegas de profissão, do desporto, de ambientes transversais - o comportamento pode mitigar essa tal coerência, expondo numa mesma pessoa um individuo extrovertido num grupo, um individuo ponderado noutro grupo ou um individuo pueril noutro ainda.

(tendo a mão escorrido para um lado diferente ao pretendido quando escreveu o título deste post, o Coroneu arrisca concluir afirmando que uma empresa tem maior agrado não só quando satisfaz a carteira dos seus empregados, mas ao incentivá-los a sublimar a genuinidade, como fazem empresas jovens como a GOOGLE e a OPTIMUS, criando condições de melhoria da qualidade de vida).

quinta-feira, outubro 19, 2006

No Café Entre Um Casal

Ele: Volta e meia liga-me a perguntar se tenho o dinheiro.
Ela: Que lata a dele.
Ele: Hoje ligou-me e eu respondi-lhe é pá espera pelo fim do mês!
Ela: Mas dinheiro para te ligar ele tem, o chato.
Ele: Sempre a ligar, sempre a ligar.
Ela: Que lata. E a divida é de quê?
Ele: Isso não te interessa.

(silêncio)

Ela: É mas é bem feita para não ficares a dever dinheiro às pessoas!

quinta-feira, outubro 12, 2006

Oggi Ho Voglia Di Parlare Italiano

Quando acontece cruzar-se na rua com estrangeiros curvados para um mapa, o Coroneu fica suspenso naquela ansiedade imberbe de ser útil. Atrasa o passo inventando pretextos a si próprio, assobia para as nuvens, disfarça mirar as montras, simula mensagens ao telemóvel. Em resumo fica a rondar como um tolo disponível na esperança consciente que lhe peçam ajuda. E porquê isso, meditava o Coroneu depois de sair do restaurante. Na altura do café pós-almoço entrara no restaurante um alemão. O Coroneu observara quando ao balcão confundiram a súplica "Badezimmer" com a ementa. Ou seja, enquanto o alemão procurava uma casa de banho eram-lhe enunciados os pratos do dia (em voz alta, porque a crença mundial dita que o forasteiro entende o idioma local se berrado palavra a palavra). Como o alemão do Coroneu é nulo, não foi além de elucidar o visitante. No mesmo dia, entre bares no meio da noite, o Coroneu teve oportunidade de falar com um casal de italianos. Estavam em lua-de-mel e o Coroneu felicitou-os quando se despediram.
- Ciao, tanti auguri!, gli hai detto Coroneu prima d'andare via. Mentre tornava a casa sua pensava como se senteva felice perch'oggi aveva veramente voglia di parlare italiano.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Uma Mulher Desmazelada Não Serve para Nada

"And I’d join the movement, If there was one I could believe in.
And you can swallow, Or you can spit, You can throw it up, Or choke on it.", Acrobat, U2

O caderno principal do semanário Sol publicado dia 30 de Setembro apresenta uma entrevista a Maria José Nogueira Pinto. No blogue da política de 54 anos lê-se que é vereadora da Câmara Municipal de Lisboa (infelizmente o blogue não informa mais sobre a vereadora do pelouro de Habitação Social da CML talvez porque o blogue, chamado "Lisboa em boas mãos", foi abandonado há um ano atrás, um mês depois de ser eleita).

O Coroneu informa que se trata da mesma vereadora que lançou recentemente em todos os orgãos de comunicação social o empreendimento do Casalinho da Ajuda - apesar da primeira pedra ter sido lançado pela anterior vereadora da Habitação Social, Helena Lopes da Costa, antes das eleições autárquicas. Quanto à entrevista, o Coroneu achou-a realmente imprevista. Diz a entrevistada que "sou uma boa meia dose". Perdão a quem simpatiza com a senhora mas pelos pitéus da entrevista, acrescenta o Coroneu, só se for meia dose de parvoíce.

- Sai meia dose de parvoíce por favor!:

"As pessoas que trabalham comigo sabem que nos momentos de grande crise, quando é preciso reflectir e tomar decisões vou para a Zara.", todo o líder político precede uma decisão de crise com a visita à loja de roupa preferida - Kennedy na crise dos misseis de Cuba, Saddam na invasão do Kuwait, D. Afonso Henriques na batalha de S.Mamede...

"As peles hoje são todas de animais criados em cativeiro, não há casacos feitos com peles de animais selvagens. Isso é uma falsa questão.", e mesmo a ser verdade toda a gente sabe que um animal de cativeiro não está confinado a um espaço reduzido, não são electrocutados, asfixiados, envenenados, gaseados ou estrangulados. Nem os criadores recorrem a estes métodos de matança para que as peles fiquem intactas. Nada disso, é uma falsa questão...

"Uma mulher desmazelada não serve para nada. (...) É uma mulher que não se pinta um bocadinho, que não tem um berloque, uma roupinha da Zara. Não as imagino a tomar conta de nada. (...) A casa deve ser um caos, não deve haver jantar.", porque o jantar deve ser feito pela mulher, porque a capacidade de trabalho mede-se pela maquilhagem - é estranho aqueles prémios Nobel que são desmazelados no vestuário - e porque, já se sabe, ir à Zara e só à Zara faz reflectir nas grandes questões do nosso tempo.

"As mulheres mais novas do PCP e do BE não são nada desmazeladas. Há 30 anos aquele discurso corresponderia a uma mulher desmazelada.", é que o discurso das mulheres espelha a sua aparência fisíca, uma das técnicas arqueológicas do futuro será ouvir discursos da personalidade para imediatamente saber como a personalidade se vestia.

"Não tenho medo que digam que ando sempre vestida da mesma forma porque as pessoas sabem que podia andar com roupa diferente. Essa é uma prerrogativa de classe da qual não me envergonho.", o importante é que as pessoas saibam que há poder de compra para andar diferente, pode-se até andar nú mas atenção - só não faz mal se as pessoas souberem que se podia andar vestido.

"Se estou no estrangeiro ponho sempre biquíni. Não há nada pior que nadar de fato-de-banho. Em Portugal uso fato-de-banho porque aqui todos me conhecem.", não faz mal fazer coisas que envergonham desde que não haja ninguém conhecido por perto, aliás, é tão óbvio que qualquer adolescente sabe disso...


sexta-feira, setembro 29, 2006

Pesar aos Mofinos Veraneantes

Sendo um pessimista fracassado o Coroneu acredita que os veraneantes não cívicos estão num lento progresso pela via da extinção. Neste Verão tímido em terminar - a seis semanas do Verão de S.Martinho - o Coroneu fez finalmente umas férias completas; com portugueses amigos e estrangeiros novos, no campo e na praia, na montanha e na cidade, no oceano e na barragem, em hotel luxuoso e numa tenda quebrada. E o comum remível destas férias eclécticas não foram os tais veraneantes,
...............................os de atitude indiferente que esgotam a caldeira debaixo de um duche demasiado demorado para um parque de campismo,
...............................os de atitude atávica que aproveitando uma ausência mudam fraldas ao bébé na toalha de praia alheia,
...............................os broncos que substituiram a laringe por megafone e que se revezam estando disponíveis e audíveis 24h na praia, no campo, na montanha e nos bares,
...............................os tétricos amantes esotéricos dos animais que levam para a praia o cão habituado ao apartamento e retornam deixando atrás todos os vestígios como nas ruas de Lisboa e Porto (cidades especiais, que eles não merecem),
...............................sendo que o comum remível destas férias foram o descanso, a actividade sempre lúdica de adormecer sobre um livro, o convívio com amigos velhos e novos, o planeamento cuidado que depois felizmente pouco se tem de cumprir, a ventilação de ideias e da motivação para o resto do ano.

Por isso, sendo um pessimista fracassado, o Coroneu acredita na extinção desses veraneantes. Informa também que planeia já entusiasmado as próximas férias. O Coroneu só pede que quando se extinguirem os veraneantes descritos alguém o avise porque até lá, férias eclécticas no campo, na praia, na montanha ou na cidade, sim! - mas longe, bem longe desta multidão de mofinos.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Demagoquê?

Na revista do último semanário Expresso, o Coroneu deparou-se com a reportagem "Portugal 5 anos depois do 11 de Setembro - o que mudou". Como na altura o Coroneu servia de cicerone em Portugal a um grupo de amigos de Londres, mostrou-lhes o título da capa que obviamente foi imediatamente chicoteada com gargalhadas gerais. As piadas do fim de semana rondaram sempre tal título.

Ao percorrer a reportagem ficamos a saber que as extraordinárias e radicais mudanças que varreram o quotidiano dos portugueses foi o modo como embarcam num avião. Portanto para o comum dos mortais que raramente circula de avião nada mudou excepto ter de engolir todos os programas que os canais americanos produzem a partir do sofrimento alheio e que a TV portuguesa - tal como as outras - compra incansavelmente todos os anos (este ano espremeram as mensagens telefónicas deixadas aos entes queridos), assumindo já esses 'documentários' como tradição na data 11 de Setembro, semelhante no apanágio que a 'Música no Coração' era há anos atrás na época natalícia. Ao Coroneu salvou-o o botão off, um copo de gelo com amarguinha e um livro escrito por um amigo que há 5 anos atrás percorria a costa americana com o Coroneu e um ford taurus alugado.

sexta-feira, agosto 25, 2006

Outra Vez Outra Velha dos Gatos

Naquela indecisão entre o dia e a noite é quando a velha sai, fecha a porta e enfrenta a rua malogrando firmeza das mãos por tremores de gelatina que não afectam as latas de atum. Da varanda do 3º andar o Coroneu olha-a a caminhar em passinhos de arrasto, agachar-se suportada ao carro e ciciar até que pelo menos meia dúzia de caudas soçobram debaixo dos carros. Aproximam-se curiosos inspeccionando sem temor as latas de atum aos pés da velha. Deste 3º andar o Coroneu pensa que há coisas universais às cidades; há sempre velhinhas solitárias que alimentam gatos vadios e miúdos de bicicleta que ao domingo no aeroporto ocorrem a ver o avião descolar.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Tom Dundee e o Orgão do Governo

Na edição impressa do jornal Público de 10 de Agosto lia-se a seguinte notícia:
"Marca de preservativos lança polémica na Tailândia. O nome [Tom Dundee] é aparentemente inofensivo, não fora dundee em tailandês significar 'boa penetração'. Temem as autoridades que a marca possa chocar as pessoas."

Tom Dundee é também o nome de um cantor/actor tailandês que garante que escolheu o ambíguo apelido em homenagem ao filme 'Crocodilo Dundee' e não pela conotação sexual.

Mais adiante na mesma notícia o Público informa:
"A agência que regula os medicamentos já pediu ao orgão do governo* que se pronuncie".

*Negrito pelo Coroneu

segunda-feira, agosto 07, 2006

Só Muralhas à Volta Deles

Na casa do Alarvo via-se o Sporting-Braga no ecrã destilado entre janelas abertas mas ausentes de correntes de ar. Uns viam mais ecrã outros surviam mais ameijoas. À volta da mesa, Muralhas. O Alarvo via a segunda parte, o Coroneu voluntariou-se para a confecção da segunda volta aos bivalves. Bulhão-Pato foi um escritor. Só historiadores da política do séc.XIX se lembram da escrita de Bulhão-Pato. No Algarve promovem-se aquelas ameijoas na caçarola a peso de ouro. Os estrangeiros pensam que Bulhão-Pato foi cozinheiro. Na casa do Alarvo saboreiam-se as originais de cariz popular. A mãe de Bulhão-Pato chamava-se Brandy mas na casa do Alarvo impunham-se Muralhas fresquinhas. O Lauro António dissertava e no outro canal a SIC exibia num intervalo de publicidade um teaser
(como dizer teaser em português?)
de criancinhas intimidadas entre abraços de mães e escombros de guerra sob uma balada enternecedora enquanto soldados esquálidos davam pontapés aos mortos como se os olhos dos mortos fingissem estar mortos e eles não soubessem que já tinham morrido. E depois a imagem escurecia e aparecia SIC e Bulhão-Pato (diz a wikipédia) era um aristocrata nascido em Espanha que fazia poesia de que - felizmente - ninguém se lembra, em casa do Alarvo lamentava-se não se ter comprado mais pão para afogar. O Alarvo e o Coroneu e as meninas suecas que os acompanhavam (uma delas com barbicha) semeavam Muralhas à volta. 'Toda a verdade' ia mostrar a OLP do Arafat, recostaram-se para ver o Sudoeste no outro canal. Não, viram um pouco do Arafat. Não, uma das meninas era ucraniana. Perdoem, o Coroneu já não se lembra bem. Foi das Muralhas à volta deles. Só pode. Ou então das suecas. Ou da ucraniana. Ou das ameijoas que mais uma vez estavam exímias. O Bulhão-Pato teve foi sorte de nascer primeiro que o Alarvo senão seriam Ameijoas à Alarvo. Mas a vida nem sempre é justa. O Sporting empatou. Outras vezes é.

terça-feira, agosto 01, 2006

Did You Ask it in Portuguese?

Ao ligar o 707200276 atribuido ao programa de milhas da TAP, o há muito ex-Navigator, atende a gravação:

"- Bem vindo ao programa Victoria. Se pretende falar português marque 1."

Depois de clicar 1, atende a gravação escolhida seguida da seguinte:

"- Your call will be answered as soon as possible. Please hold the line."


P.S. - Verifica-se também ao visitar a página do programa destacada em cima, que o programa Victória é não só "for winners" (mesmo na opção página em português) mas para winners de olhos biconvexos de lupa. Cheios de truques estes privilégios de passageiro frequente...

quarta-feira, julho 19, 2006

Zumbidos do Espaço para Mocos e Surdos

Apontando para os ouvidos com os indicadores o Coroneu avançou para o trabalhador que desligou o martelo pneumático a entender:
- Mas eu há 15 anos que ando nisto e nunca usei nada disso homem.
- E ouve bem?
e o trabalhador
- Hã?
e o Coroneu
- Se ouve bem.
e o trabalhador
- Se não vou aonde, não vou, agora é mau de largar.
e o Coroneu
- Bom você é que sabe.
e o trabalhador
- Está bem, mais tarde ainda vá.
e o Coroneu afastando-se
- Então saudinha.
e o trabalhador reiniciando o pneumático
- Sim, pela tardinha que é boa hora.
E o Coroneu afastou-se apontando para os ouvidos com os indicadores e ouvindo a voz do trabalhador sobreposta ao fura fura do martelo:
- A gente logo conversa home, mas há 15 anos com isto e até oiço os mosquitos do espaço.

quarta-feira, junho 28, 2006

quarta-feira, junho 21, 2006

(Diz o Betandwin e bem que)

O chilli vai ser cozido à portuguesa!

(que publicidade fará no México?)

segunda-feira, junho 19, 2006

Chuva de Verão no Vidro

Que sorte, pensou o Coroneu. Que sorte estar acordado quando o corpo da cidade se encharcou de trovada. O Coroneu foi fechar a janela deixando as persianas suspensas. Através do vidro, as coisas do quarto surpreendiam-se em clarões por segundos, formas de repente e depois escuro outra vez.

Deitado o Coroneu aprecia os relâmpagos. No dia anterior um jogo do Mundial. O Coroneu gostava de um Portugal - Argentina mas muita gente diz que Holanda seria mais fácil. Portugal eliminou Holanda no Euro. Mas ver um Portugal-Argentina não seria todos os dias, pensa o Coroneu deitado com os relâmpagos a entrarem no quarto.

Nessa noite ao curvar para a rua uma carrinha de bombeiros. Alguém puxara fogo ao ecoponto azul. Mais adiante outro ecoponto ardido, o cheiro a plástico queimado que a chuva agora desvanecia.

Uma chuva de Verão a bater na janela.
Que sorte, pensou o Coroneu antes de adormecer.

terça-feira, maio 30, 2006

Correr, Confuso Como o Coelho (Carroll)

50 minutos de transporte público e inicio do trabalho para o curso dessa noite. São 8h00 e o Coroneu sai na paragem do autocarro frente à fábrica. Pousa o portátil, troca as botas. Toma o pequeno-almoço na cantina. Hoje há expedição extra. O portátil marca 8h30 quando se senta a trabalhar. Hoje há uma expedição extra, confirmam os de França por telefone. Levanta-se, vai coordenar a equipa para reduzirem horas de descanso 'desculpem mas é preciso', diz o Coroneu. Na hora de almoço telefonam-lhe. O Coroneu tenta desmarcar as explicações de Matemática. 'é que o teste é amanhã', diz a aluna e o Coroneu cede para as 19h. No final do dia um imprevisto, quase impedia a expedição extra. 'Envia-se o contentor do laboratório!' 'E o laboratório?' 'Repõe-se amanhã'. Resolvido.

20 minutos de transporte público e metade do trabalho para o curso. Chega ao centro 30 minutos atrasado. 'desculpa, houve um imprevisto'. De livro aberto a aluna pergunta dos senos. O Coroneu explica. A aluna pergunta dos cosenos. O Coroneu explica e lembra-se que talvez não haja boas peças suficientes no laboratório. A aluna pergunta das tangentes. O Coroneu explica-lhe no caderno que a 90% de qualidade levando um contentor 5 paletes e cada paletes 4 peças os dois contentores do laboratório terão 4 peças defeituosas máximo. A aluna titubeia 'tangente?...'

30 minutos de transporte público e trabalho para o curso completo. Chega atrasado ao curso. O professor diz que chegou na hora certa. Apresenta o trabalho. O professor pergunta do consumo. O Coroneu explica. O professor pergunta das estatísticas. O Coroneu explica e calcula mentalmente as peças de risco. O professor pergunta da legislação. O Coroneu explica que a tangente na verdade é o declive de uma recta. O professor titubeia 'como?...'

10 minutos a pé. Supermercado. 10 minutos a pé. 22h00 em casa, os amigos convidados esperavam à porta. O Coroneu cozinha meia-dose de cosenos, uma pitada de estatísticas de azeite com legislação q.b. e muita peça a 90% qualidade com uma dose secreta de contentores de laboratório. Quando sai do forno os amigos do Coroneu desertaram. O Coroneu não percebe, ainda eles se queixam que o Coroneu já não lhes dedica tempo!... Vai para o quarto e sob o céu de estrelas fluorescentes coladas no tecto adormece finalmente. 01h00.

terça-feira, maio 09, 2006

Piada Parva Ouvida na Rua

- Olha ali! Olha ali!
- Er, onde, o que é?! Onde?!
- Era ali, passou mas já não viste.
- Mas quem?
- Era o tempo, passou a correr...

(E é aqui que se assinala assumidamente o bate-fundo onde chegou o blogue do Coroneu por falta de tempo para actualizações. A ver se é desta - agora é que é - que as actualizações acumuladas na cabeça passam para o ecrã... É que sem dar por isso quando o Coroneu vai ver já passaram 2 semanas. Sim, porque o tempo passa a correr. )

sexta-feira, abril 21, 2006

Bom Dia e Boa Sorte

Andava o Coroneu a preencher tempo morto confirmando finalmente os números de telefone de emergência, quando chegou a vez dos bombeiros:
- Bom dia, Bombeiros Voluntários de Alcântara.
- Queria confirmar o número de serviço para a área desta obra por favor, pediu o Coroneu.
- Qual é a morada?
- ...
- Zona norte ou zona sul?
- Bem, a obra é mesmo dentro do hipermercado...
- Pois, mas o hipermercado é grande, se for zona norte é uma corporação se for zona sul é outra.
- Bom, e vocês qual das zonas cobrem?
- Ah nós nem a norte nem a sul, só lhe estava a perguntar para
- Obrigado, agradeceu o Coroneu e desligou.

Para descansar de bombeiros o Coroneu passou então para a protecção civil:
- Bom dia, queria confirmar o número de serviço de protecção civil por favor, pediu o Coroneu.
- Qual é a morada?
- ...
- Só um momento que eu vou passar.
Tuuuu, tuuuu, tuuu e finalmente atendem:
- Bom dia, Bombeiros Voluntários de Alcântara em que posso ajudar?

segunda-feira, abril 17, 2006

Prova Lá Do Teu Ladrar (e deixa dormir na rede)

É fácil, primeiro grava-se no telemóvel o ladrar do jovem cão. Depois quando o cão estiver desprevenido, género a divertir-se fazendo trapos da mão do Coroneu, retira-se do bolso o telemóvel com aquela mão que não está a ser destruída pelos incisivos e carrega-se na tecla a reproduzir o som do ladrar. E ai é ver as orelhas a espetarem, o cão suspenso no seu próprio ladrar a tentar entender, olhar a medo o ecrãn de onde sai o som.

Não é por mal mas depois disso cada vez que os quilos de dentes se aproximam com vontade de brincar é só clicar na tecla e virar o telemóvel e é ver o cão pesado e poderoso a fugir do pequeno aparelho que contém o segredo para finalmente dormir balançado na rede, livre das brincadeiras permanentes de um cão sempre com demasiada energia para a paciência sonolenta de um Coroneu embalado.

segunda-feira, abril 03, 2006

Praça Perdida na Cidade

O Coroneu arrisca afirmar que Lisboa deve ser a única cidade do mundo com um jardim de largo nomeado assim, circuitado pelos carros dos cabarés e cujos bancos de pedra são a casa de velhinhos solitários com bengalas que espalham o milho dos pombos, ou curvados por ali outros velhinhos sem bengala distribuem carapaus fritos pelas embalagens de manteiga vazias rodeados por roçares de pêlos pelas pernas e mil miares sôfregos, ou outros velhinhos que recordam alto vidas que já ninguém liga, eles próprios desapercebidos que ninguém lhes liga a suspirarem alto frases como "que é feito da minha odalisca de rubi". E nesse largo a árvore maior é um salgueiro chorão, tão harmoniosa e no entanto a espécie de árvore mais triste do mundo.

E assim o Coroneu arrisca afirmar que Lisboa deve ser a única cidade do mundo com um largo semeado de velhos orfãos de si mesmos, pombos poluídos e gatos anoréticos, rodeada de cabarés nocturnos, tudo sob a árvore mais triste do mundo nessa praça cujo nome escrito na placa ao alto os carros que entram e saiem (a caminho do Bairro Alto) ignoram: 'Praça da Alegria'.

quarta-feira, março 22, 2006

Ópera da Repartição Pública - parte I

cenário de escritório de detectives nos anos 50, com livros empilhados no balcão e ventoinhas de cabeça giratória que não afastam moscas nem calor. Num papel A4 seguro ao alto com fita-cola lê-se 'Finansas aqui'.

49 pessoas esperam entre as quais um cigano barbudo com todos os lugares adjacentes vagos, um bébé a mamar da despudorada mãe, dois estudantes a discutirem Kafka e um homem de camisa havaiana que caminhando com o telemóvel encostado grita intermitentemente 'Venda seu burro venda'.

Antes do Coroneu é atendida uma velhinha surda que entrega a senha ao balcão. No balcão a conversa com a velhinha surda evolui
- Se o seu marido só morreu este ano não tem de ter recebido isso - diz-lhe a funcionária.
- Mas disseram-me que... - diz a velhinha.
- Ó filha a mim também me dizem muita coisa.
- Eu não sei mas... - diz a velhinha.
- Ai e eu é que sei? - e virando-se para os colegas em tom cúmplice - sou bruxa queres ver?
- Veja lá se é isto -a velhinha abre a mala.
- Ai nem pensar que vou mexer ai! Não me pagam para isso.
- Só recebi este papel...
- Ai mulher não é nada disso - e virando-se para os colegas em tom confessional - calham-me sempre estas velhas!
- E também este...
- Pronto está a ver, afinal estava aqui! Para a próxima não faça tanta confusão não vê que estão mais senhores à espera, olhe aquele senhor ali à espera - e a funcionária aponta para o Coroneu.

O Coroneu levanta-se, abre a boca à funcionária e fá-la engolir o cigano barbudo, os estudantes que não pararam de falar de Kafka, e o homem de camisa havaiana que ainda guturou 'Venda...' do estômago da funcionária. A mãe despudorada ficou porque tinha a senha seguinte e é chato perder a vez ainda para mais a amamentar um bébé.

"Para a próxima vou à Loja do Cidadão", diz o Coroneu saindo de braço dado com a velhinha que em troca lhe dá uma receita de souflé.

E cai o pano

segunda-feira, março 13, 2006

Post Pós Filme Drama Romântico

Embora natural às vezes parece crueldade essa coisa de deixar de gostar. Mas pior é quando as pessoas, em cima disso são trapalhonas e não sabem comunicar o facto. Um conhecido do Coroneu quando quis terminar passou a inventar mil e dois pretextos de zanga com que martirizava a relação.

A sorte para manter a fé é que às vezes vêem-se casos raros de quem gosta de verdade e de quem sabe cuidar de quem gosta - como ontem o velhinho a mostrar a língua à velhinha e quando ela olhava encolhia-a a disfarçar, na brincadeira.
(O Coroneu pede desculpa do teor mas ficou a meditar depois de tropeçar num filme drama romântico que acabou mesmo agora).

sexta-feira, março 03, 2006

Quando a Personagem Doma o Criador

"É o blog de que se fala no intervalo das reuniões entre as grandes potências mundiais", JPP em entrevista na rádio 'Rádio'.

Parabéns! O Coroneu faz 3 anos e 1 semana certinhos. Surpreendente o sucesso deste blog como atesta a média de 1004 comentários diários (alguns até de lugares tão longínquos e exóticos como, pasme-se!, Amadora); a profusa reverência que blogs razoáveis de deputados e jornalistas reconhecem citando excertos do Coroneu (no citador só no mês passado chegavam a 0,85 citações o que é quase uma citação completa!); o convite para entrevista da Sra. Ana Sousa Dias que o Coroneu declinou o mês passado por simples humildade artística (e constipação); na caixa de correio transbordam convites que o Coroneu amavelmente rejeita para encerramento de congressos de médicos, advogados ou delegados de propaganda (o que é quase a mesma coisa com a diferença que os delegados são comerciantes transparentes) - mas agradece por o material desses convites atear lareiras melhor que o próprio papel de jornal;

E para quê, para quê tanta honra, se afinal a enorme genialidade do Coroneu contenta-se com tão pouco, bastava-lhe repousar num lugar vitalício, a saber, na administração de um instituto público por exemplo - aceitam-se convites -, e a adequada delegação de fãs virgens, quer dizer, secretárias.

Resta ao humilde Coroneu, que não é de se gabar, agradecer as inúmeras felicitações e telefonemas vindos dos incontáveis amigos e admiradores da América do Sul, Brasil, Argentina, Japão, Quirguizia, Austrália, Montemor-o-Velho, New Orleans (que desde Agosto é realmente New) e, novamente pasme-se!, Amadora. Bem hajam!

"Portugal só não sofreu atentados terroristas ainda por causa desse blogue muito apreciado no estrangeiro o que é uma coisa extraordinária", Prof. Marcelo emitido em comentário particular na estação de televisão 'TV'.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Pela Estrada Fora

"The end of our journey impended. Great fields stretched on both sides of us; a noble wind blew across the occasional immense tree groves and over old missions turning salmon pink in the late sun. The clouds were close and huge and rose.", 'On The Road', Jack Kerouac

É um dos livros datados mais queridos ao Coroneu. Tão datado como é a adolescência e tão refrescante quanto ela. Quando o Coroneu o lia já tinha percorrido metade da Europa e ia a caminho do Novo Mundo, do país que Jack Kerouac desenhara com palavras de uma só vez, com contornos de estradas onde se cruzam personagens loucas que sabem bem nos livros mas indesejáveis de encontrar na realidade. E sempre aquela urgência do viajante com a noção que sobra tanto por conhecer! Escrito em 1951 a transposição ao cinema está a ser produzida por F.Ford Coppola e com a agradável surpresa da realização por um dos realizadores no topo das referências de cinema contemporâneo do Coroneu: Walter Salles (não só pelos 'Diários de Motocicleta' mas anteriormente pelo 'Abril Despedaçado').

Kerouac fez várias gravações incluindo de excertos do livro e artistas posteriores, como Jeff Buckley, gravaram discos de tributos. Há uns anos o Coroneu esteve assim de conseguir um exemplar na FNAC.

Ensina-se que Jack Kerouac escreveu o livro 'On the Road' em apenas três semanas, sob o efeito de benzedrina. A escrita drogada é bastante credível - pessoalmente, não aumenta nem reduz o fascínio da obra - mas o Coroneu que sabe o preço cronológico de uma frase boa, duvida que o livro foi escrito em tão pouco tempo, com as suas personagens intrincadas (talvez uma delas vá ser interpretado por Brad Pitt) e as inúmeras aventuras com Dean Moriarty e Sal Paradise, protagonistas que fazem desejar ter crescido numa adolescência mais louca ou, conforme a leitura, reconforta por não ter vivido uma adolescência tão louca assim mas que sabe bem ler nos livros porque nas entrelinhas cheira a torrada de manhã e ao suor das estrelas da madrugada.

“The only people for me are the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn, like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars", 'On The Road', Jack Kerouac

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Coroneu + Rita (Bom Dia Alegria!)

A personagem Coroneu (não o autor do Coroneu), que desde o 'Pantanal' não seguia uma telenovela, confessa quase envergonhado que segue a telenovela 'Mundo Meu' desde o primeiro episódio. A personagem Coroneu (não o autor do Coroneu) confessa também, quase ruborizado, que fica defronte da televisão a sorrir sozinho quando entra em cena a personagem Rita (não a actriz que a interpreta, embora com o mérito devido) e que é talvez essa a razão da fidelidade. A personagem Rita (não a actriz que a interpreta) acorda feliz, é um arco-íris e nunca se prende a dificuldades, pensa o Coroneu a sorrir.

E é talvez por isso que quem passar nas traseiras do riacho onde o Coroneu viveu, vai reparar na casca grossa do castanheiro inscrita toscamente a canivete ali à altura da cintura
'Coroneu + Juma'
E agora acima à altura do peito, outra inscrição actualizada
'Coroneu + Rita'

Agora que esta novela está a acabar e uma vez que o castanheiro continua a crescer, o Coroneu medita quando será a próxima inscrição e que nome irá gravar a seguir em traços toscos de canivete, na casca grossa à altura da cabeça.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Escutar Não é Só Ouvir

Derrapando nas curvas de pó, ao lado da passageira que queria impressionar, o automobilista avançava fora do limite de velocidade quando outro carro mais sereno passou em sentido contrário gritando qualquer coisa de que sobrou
'Porco!'
O automobilista ferveu no sangue próprio dos latinos que não levam insultos para casa e respondeu retroactivo ao carro que passava
'Porco és tu #%$&/@ ó animal filho #&#$$%$!'

Logo depois do encontro importuno o automobilista retomou ainda com mais vigor a velocidade nas estradas de pó. Segundo declarações posteriores da passageira, o insólito acidente deu-se à saída guinchada de uma curva com causa a que um enorme porco a ruminar estático no meio da estrada não terá sido indiferente.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Já Vai

(Deve ter sido das últimas eleições presidenciais que deixaram o Coroneu ausente, talvez para absorver os resultados. A emissão segue dentro de momentos.)

quarta-feira, janeiro 18, 2006

É Só Impressão ou...

... o Procurador Geral da República está prestes a ser demitido, ou sexta ou segunda? Há muito que já devia ter sido.

... a Manuela Ferreira Leite vai ser candidata a Primeiro-Ministro depois do segundo mandato do Sócrates? Vai meritóriamente ser eleita.

... muitos dos estudantes agredidos na década de 90 com a polícia cavaquista querem eleger Cavaco? E parece que o polícia que Soares mandou sair da frente vai votar Soares.

... ainda há esquerdalha que vota no Garcia Pereira? Ao menos o Jerónimo não tem cara de antipático, o Louçã concorde-se ou não sabe exprimir-se e o Alegre pode até declamar um poema ou em caso de crise, dois.

(Entretanto no Chile foi eleita a primeira mulher chefe de governo da América do Sul e no Perú há algumas chances de ser eleita a segunda. Isto tudo como pretexto para dizer que o Coroneu queria era voltar ao Perú ou ver melhor o Chile, que isto das eleições e da estupidez humana dá cabo da cabeça ao Coroneu...)

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Samba do Brasil (e há outro?)

'O samba é pai do prazer
O samba é filho da dor'
......................................Caetano Veloso


Há manhãs em que o sol quando espreita às persianas vai directo bater nas pálpebras já a gritar 'Brasil'. E depois seja uma música na rádio ('muita calma nessa hora...'), seja um amigo ao telefone ('e ai cara') ou uma passagem pela GNT e é só sacar lembranças do saco da memória até sair também o cheiro da chuva de Março, ai o cheiro da chuva de Março!, a cintura rebelde do forró, ai as meninas do forró! e até os meninos do forró!, a praia, a praia, a praia, meu Deus as praias daquele país!, as expressões dos brasileiros, a descontracção, a música que o Coroneu antes detestava, forró axê funk samba, os luaus e os países dentro do Brasil, os brasileiros diferentes dos brasileiros, a temperatura nem quente nem fria um tépido moderado com uma humidade exagerada de camisas coladas, os sucos de fruta, a água de côco ou melhor ainda suco de cana ou melhor suco de cana com mistura!, e o culto do corpo sem mostras de inveja, a batalha diária na academia, a forma de fazer amigos (oi tudo bom você é daqui não?), essa maldição que é transformar o olhar e ver também o país da miséria de arrepiar, do crime descontraído, corrupção, enfim tudo o que o samba fala da dor e do prazer, da dança e do sol e da música - já se falou da música? - e naquele tempo contemporâneo da felicidade quase plena o sol acordava com o Coroneu de madrugada a pensar que se Portugal foi um dos pais do Brasil agora, mesmo se não durasse para sempre, valia a pena ser um dos filhos adoptados do Brasil, pode ser Brasil?, perguntava o Coroneu consciente da sorte que tinha. E o Brasil, com um samba de chuvada ao final do dia, respondia alegre que sim.

'Tem gente de toda a cor
tem raça de toda a fé
guitarra de rock and roll
batuque de candomblé'
..........................................Ivete Sangalo

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Em Que É Que Estás a Pensar?

Há muitos projectos e estudos que não se sabendo bem para que servem despertam uma curiosidade de revista de escândalos. Um dos últimos onde o Coroneu tropeçou é o 'The Thought Project'. O autor é um fotógrafo dinamarquês que durante 3 meses interpelou 150 transeuntes em Copenhaga e Nova Iorque perguntando-lhes em que pensavam naquele instante. Apresenta uma selecção curiosa e quase impressionante de 50 protagonistas com as respectias fotos e pensamentos. E assim o Coroneu tem vontade de perguntar ao leitor: "Em que é que estava a pensar, sr.(a) leitor(a)?"